Era noite, a estrada sinuosa. A cada curva uma nova certeza. Tudo o que víamos se devia aos faróis do carro. E ao fato de estarmos ali, se devia as ironias do destino inexistente. Éramos loucos, dirigindo na estrada. Como dois lobos selvagens a procura de um único suspiro de emoção. Os tempos eram outros, as florestas viraram selvas de pedra. As pessoas imorais, ladras e sem emoção. E a Lua, a única testemunha de nossos atos. Tudo, todos, um mundo. Do qual não fazíamos parte. Sempre ficou claro que preferimos o nosso mundo, paralelo e real. Livres, e presos. Presos um ao outro. Viciados um no outro. Vicio, do qual pretendemos não se curar, mas sim, ficar ainda mais viciados. Bebemos uma dose de coragem, limpamos nossos lábios na intensidade e seguimos a viagem. Para onde nossos instintos mais perversos nos levassem.
Presos a um destino juntos. Não sobra nada do tempo de antes. A inocência deu lugar ao amadurecimento e os efeitos dessa transformação permanecem gravados em nossos corpos. O coração inquieto e a mente querendo silenciar, ou seria o contrário? Não sei. Também não faço questão. Apenas quero me deixar levar a tudo que o momento trás, me permitir, nos permitir. Quando estamos juntos é como apertar o "mudo" no controle remoto que controla o mundo, e "play" em tudo aquilo que não sei explicar. Um toque, um olhar, uma respiração próxima um do outro, um abraço que transmite segurança, um sorriso que acalma. O silêncio que muito diz. Senti sua cabeça escorada em meu ombro, senti sua mão em minha perna, e com ela, a sensação de que nada vai nos impedir. Divido contigo e com os pássaros essa visão solitária. Scar Tissue, lembra?
Seguimos na estrada como se fugíssemos de algo. Não importava o amanhã. O agora se construía de momentos. Sorri ao ver que adormecera no meu ombro. Fiz um carinho nos seus cabelos longos. Senti a sua pele quente. Nada poderia nos impedir.
Amanheceu. Os primeiros raios de Sol tocavam sua face. Nossos horários não condizem com o resto do mundo cinza. Passo a noite articulando um velho violão apenas para o teu prazer. Espero amanhecer para ver uma luz diferente que não seja teu olhar. Dê-me alguns poucos minutos para guiar o carro e encontrar um velho hotel de beira de estrada, onde um ancião tocando sua harmônica, gentilmente nos guia a um quarto, que seja pequeno ou empoeirado. De valor inestimável já me chega tua companhia. E bagagens, quê bagagens? Bobagens! Deixo minhas cordas musicais no banco de trás, no nosso hotel de tantos momentos. Te pego pela mão, e tenho tudo o que conquistei. Mas quero voltar logo para a highway, quero ouvir aquele som sulista e correr até atingir a velocidade ideal para que o vento torne-se impossivelmente mais agradável. Com a finalidade única de ver teus cabelos se rebelarem e me fazer sentir teu perfume. Ver a tua camisa minha, um velho trapo de uma banda de rock dos anos 70. Que cai perfeitamente por teus ombros, te deixando linda do teu jeito meu. Não acordarás sentindo meu perfume nela, mas sim, sentirás o perfume em meu pescoço.
Ilegalidade é puro instinto, perigos são amigos e incertezas são planos tão concretos quantos as montanhas da estrada. Se errado assim, eu consiga te atrair pra mim, que errado assim eu seja até o fim.
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