quinta-feira, 28 de julho de 2011

Presságio.

Era noite, a estrada sinuosa. A cada curva uma nova certeza. Tudo o que víamos se devia aos faróis do carro. E ao fato de estarmos ali, se devia as ironias do destino inexistente. Éramos loucos, dirigindo na estrada. Como dois lobos selvagens a procura de um único suspiro de emoção. Os tempos eram outros, as florestas viraram selvas de pedra. As pessoas imorais, ladras e sem emoção. E a Lua, a única testemunha de nossos atos. Tudo, todos, um mundo. Do qual não fazíamos parte. Sempre ficou claro que preferimos o nosso mundo, paralelo e real. Livres, e presos. Presos um ao outro. Viciados um no outro. Vicio, do qual pretendemos não se curar, mas sim, ficar ainda mais viciados. Bebemos uma dose de coragem, limpamos nossos lábios na intensidade e seguimos a viagem. Para onde nossos instintos mais perversos nos levassem. 
 Presos a um destino juntos. Não sobra nada do tempo de antes. A inocência deu lugar ao amadurecimento e os efeitos dessa transformação permanecem gravados em nossos corpos.  O coração inquieto e a mente querendo silenciar, ou seria o contrário? Não sei. Também não faço questão. Apenas quero me deixar levar a tudo que o momento trás, me permitir, nos permitir. Quando estamos juntos é como apertar o "mudo" no controle remoto que controla o mundo, e "play" em tudo aquilo que não sei explicar. Um toque, um olhar, uma respiração próxima um do outro, um abraço que transmite segurança, um sorriso que acalma. O silêncio que muito diz. Senti sua cabeça escorada em meu ombro, senti sua mão em minha perna, e com ela, a sensação de que nada vai nos impedir. Divido contigo e com os pássaros essa visão solitária. Scar Tissue, lembra?
 Seguimos na estrada como se fugíssemos de algo. Não importava o amanhã. O agora se construía de momentos. Sorri ao ver que adormecera no meu ombro. Fiz um carinho nos seus cabelos longos. Senti a sua pele quente. Nada poderia nos impedir.
Amanheceu. Os primeiros raios de Sol tocavam sua face. Nossos horários não condizem com o resto do mundo cinza. Passo a noite articulando um velho violão apenas para o teu prazer. Espero amanhecer para ver uma luz diferente que não seja teu olhar. Dê-me alguns poucos minutos para guiar o carro e encontrar um velho hotel de beira de estrada, onde um ancião tocando sua harmônica, gentilmente nos guia a um quarto, que seja pequeno ou empoeirado. De valor inestimável já me chega tua companhia. E bagagens, quê bagagens? Bobagens! Deixo minhas cordas musicais no banco de trás, no nosso hotel de tantos momentos. Te pego pela mão, e tenho tudo o que conquistei. Mas quero voltar logo para a highway, quero ouvir aquele som sulista e correr até atingir a velocidade ideal para que o vento torne-se impossivelmente mais agradável. Com a finalidade única de ver teus cabelos se rebelarem e me fazer sentir teu perfume. Ver a tua camisa minha, um velho trapo de uma banda de rock dos anos 70. Que cai perfeitamente por teus ombros, te deixando linda do teu jeito meu. Não acordarás sentindo meu perfume nela, mas sim, sentirás o perfume em meu pescoço.
Ilegalidade é puro instinto, perigos são amigos e incertezas são planos tão concretos quantos as montanhas da estrada. Se errado assim, eu consiga te atrair pra mim, que errado assim eu seja até o fim.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Alarme falso.

Sei que não enxergo, mesmo tão claro. E o que te cega é raiva do passado, sabendo que não há mais ninguém pra culpar. Já faz um tempo que eu me tornei tudo aquilo que você não quer mais, mas deixo que os fatos te convençam disso. Não espere eu me desculpar, tenho os motivos que preciso. Tanto faz se já desistiu antes de tentar, tanto faz. Não me importa o que eu fiz há um tempo atrás. Sei que não percebe, mas outro ano se foi e com ele mais uma promessa vai se quebrar e outra ficar no lugar. Finjo que não me importo, olho para o lado, tendo ignorar quando você passar. Não me incomoda, mas também não me deixa em paz. Não pedi a sua ajuda, nem nada do que pode oferecer. Fico com as minhas verdades e mentiras. Não demonstro os meus medos ou aonde quero chegar. Achei o álibi perfeito e deixo que faça acreditar.
Agora é tarde pra tentar mudar, é como rezar pra quem não acredita. Nem mesmo sorte pode ajudar quando as cartas são marcadas pra um jogo de azar. Esqueço o que eu já fui, pois não existe mais.
Não existe mais certo ou errado, ou em quem devo confiar. Dizem que não há nada que eu posso dizer pra tentar mudar. Mas ao mesmo tempo pergunto; quem são vocês pra me julgar? Uma arma carregada sem gatilho pra puxar, um alvo fácil de se acertar. Sou o que você quiser, mas também o que sempre evitou. Mas eu não sou mais um qualquer, você sabe e com certeza vai lembrar. Só mais um cigarro é o tempo pra eu decidir, entre brigar, ficar ou ter que desistir. Não vai ser outro alarme falso, dessa vez vai queimar. Tento não dar ouvido às vozes, parecem nunca me deixar em paz.  Mais uma vez tento não ouvir alguém dizer o que eu já sei. Vou usar meus sonhos pra te encontrar e meus pesadelos pra te assombrar. Sei que não é o certo, mas mesmo assim não vou deixar você passar a noite sem mim. Vou estar presente aonde for e mesmo não me vendo eu sei que vai sentir. Não há outra sombra pro espaço que deixou, sendo que é o vazio que rouba teu lugar. É só mais um vício pra me fazer tentar parar. Vício tão certo quando a dor que eu causei, e assim como provoquei posso fazer parar. É só querer não ser outro igual a você. Mas faria igual ou pior, sabe bem, o dia nunca amanheceu naquele lugar. Não leve a sério se eu me comportar como outro alguém, em pouco tempo vai te dominar e fazer escravo sem perceber. Quanto tempo aguentará? O tempo que me esforço pra lembrar o inesquecível.
É a primeira e última vez que vai ser assim, grave bem o que eu vou dizer. A partir de agora, as coisas que mais gosta serão as que eu mais vou odiar. Os lugares que nunca vai, vão ser aqueles que eu vou estar. E quem odeia, vai se tornar o meu melhor amigo. A segunda e última vez que vai ser assim.. pois nem querendo você vai viver longe de mim.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Tatuado na retina.

Coço minhas pálpebras com meus dedos
em um anseio tanto angustiante quanto desesperado.
Abro meus olhos em direção qualquer
que requer minha força para não ofuscar.
Perco a visão por um momento inexistente
enquanto apensa ouço meus dentes rangerem.
Libero a cólera que paira nebulosa sob meus pesamentos
sendo este o momento da folha e papel.
Nem sempre contundente, nem sempre com sentido.
Tento escrever sobre amor e conquista, pois impossível
enquanto a incerteza estampa minha retina.
Paro, penso e não mais escrevo
e então, coço minhas pálpebras com meus dedos.
Enfim uma luz, não uma ideia ou esperança
um abajur, preto e branco, produzindo brilho e sombra.
Ritmo sem dança ou o antigo lápis sem papel.
Uma cabeça que cansa, dois olhos que se fecham
e dez dedos, que os movimentos cessam.